Quando Deus andou a criar o mundo não disse Fiat, se assim fosse teria ficado o mundo todo por igual, uma palavra e basta, mas foi andando e fazendo, fez o mar e navegou nele, depois fez a terra para poder desembarcar, e em alguns lugares demorou-se, noutros passou sem olhar, aqui descansou, e, não havendo ninguém da humana espécie a espreitá-lo, tomou seu banho, por ainda se lembrarem disso é que as gaivotas se reúnem em tão grandes bandos perto da margem, continuam à espera de que Deus volte a banhar-se nas águas do Tejo, embora outras, uma vez ao menos, em paga de terem nascido gaivotas. José Saramago
Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe
As coisas de acordo com esta emoção – o marulho das águas.
O marulho leve das águas do rio de encontro ao cais….
A vela passando perto do outro lado do rio,
Os montes longínquos, dum azul japonês,
As casas de Almada,
E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!…
Uma gaivota que passa,
E a minha ternura é maior.
Mas todo este tempo não estive a reparar para nada.
Tudo isto foi uma impressão só da pele, com uma carícia
Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo,
Da minha casa ao pé do rio,
Da minha infância ao pé do rio,
Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite,
E a paz do luar esparso nas águas! …
Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu…,
Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me
(Se bem que eu fosse já crescido demais para isso)…
Lembro-me e as lágrimas caem sobre o meu coração e lavam-no da vida,
E ergue-me uma leve brisa marítima dentro de mim.
ÁLVARO DE
CAMPOS: fragmento da Ode Marítima
En aquest estuari -en dies clars- hi ha una cosa que sembla
imantar la vista: són els blancs de les llunyanies. Són els blancs de Corot
-potser el batec de la matèria, que en el paisatge té una virtualitat més
excelsa i palpitant. En aquest estuari hi ha, flotant sobre l'aigua, emmarcat
en les llunyanies de la terra, blancs de tots els colors: algunes vegades d'una
paternal densitat; altres, més lleugers; altres; més alegres i d'un pes
lleugeríssim, volàtil. Aquests blancs de Corot, d'Itàlia i de Provença, ací
més esponjats, em tenen el cor robat, em fascinen. El blanc tens, sanguini, real, jove,
vital, és una maravella. L'estuari de Lisboa té, en dies clars, tots aquests
blancs. Tots els problemes de la pintura moderna hi són
concentrats
JOSEP PLA: Direcció Lisboa
Hay quien dice que Lisboa es una mujer que baila en el estuario, en el río que es mar.